Convicões no peito

(abril de 2018)

 

 

As convicções são como brasas. Elas queimam e movem máquinas, moinhos e crenças. Homens de fé caminham sobre o fogo, rolam e aquecem o peito com ideias incandescentes.

 

Dizem que Kafka pediu a seu melhor amigo, Max Brod, que queimasse seus escritos. Max preferiu, em vez disso, publicá-los.

 

Sócrates, apesar de ser conhecido por suas aporias, era um homem tão convicto que às vezes tomava pancadas na cabeça, de seus interlocutores.

 

A missão da poesia é amolecer as crenças para que os suicidas, ao colocarem pedras nos bolsos, flutuem em êxtase, em vez de afundarem amargurados nas águas podres da existência.

 

Sócrates e Platão reconheceram na poesia a grande inimiga da crença e do totalitarismo e, por isso, a baniram de sua república protofascista.

 

O fogo é o nosso destino, sem dúvida. Tudo um dia arderá em chamas, inclusive os escritos de Kafka. Nesse ponto, tanto a ciência quanto o apocalipse estão de acordo. Um dia, o que a humanidade se habituou a chamar de atemporal voltará a ser cinzas.

 

Como enigma, resistira a poeira e a poesia.

 

 

 

Sonhador, 2018

 

 

Apanhador de signos

(fevereiro de 2018)

 

Um sonhador apanha signos estilhaçados e os remonta em sua cabeça quebrada. Em seu sonho a vida era uma sala de espera com duas portas, uma trancada - onde se lia "passado" - e outra aberta - onde se lia "morte". A morte era outra sala de espera com duas portas, uma trancada - onde se lia "passado" - e outra aberta onde se lia "eternidade". A eternidade era uma sala de espelhos com infinitas portas refletidas onde "vida" e "morte" se embaralhavam e formavam fosfenos e neologismos.

 

O sonhador se perde na dor da vigília, entre a torre elevada e o elevador descendente dos anjos alquebrados. O sonhador é um doador de imagens, um Salvador Dalí crucificado numa TV sem luz no fim do tubo. Na vigília somos como doentes entubados, ressuscitados e mantidos por aparelhos que piscam e ditam ordens. A ordem do dia é sonhar de olhos bem abertos.

 

 

 

 

 

Solidão nua

(dezembro de 2017)

 

Na janela, uma mulher melancólica
ora e chora
pela vagina imberbe e aberta

Na Lua, um astronauta sonhador ri bobo

do azul da Terra

e da solidão nua das crateras

 

 

 

 

Reciclagem, 2017

 

 

 

 

A curiosidade

 

(dezembro de 2017)

 

 

 

Enquanto religiosos caducos e bitolados se preocupam com a discussão da sexualidade nas escolas e nos museus, a ciência patrocinada por investidores e empresas gananciosas pesquisam formas de manipular o código genético, prática que pôde trazer, como a fissão nuclear que gerou a bomba atômica, consequências inmagináveis.

 

Vivemos numa época de intensa intervenção sobre o corpo humano. Da edição do código genético à implantação de chips sob a pele; da biometria ao implante de cabeça, a humanidade vai, pouco a pouco, reinventando a roda e a vida.

 

Os espíritos retardatários, porém, ainda se contentam em criticar a tatuagem e o piercing.

 

Estamos a anos-luz de tudo aquilo que diz toda e qualquer escritura sagrada. Nossos profetas são os escritores que, entre utopias e distopias, se empenham em descrever o óbvio e o presumível. O apocalipse tem um único nome e uma única praga: a curiosidade.

 

Não são os males liberados por Pandora que devastam o mundo, mas, antes, a curiosidade sem limites que a fez abrir a caixa.

 

 

 

A fuga do ciclope, 2017

 

 

A luz está morta

 

(outubro de 2017)

 

 

 

- A luz está morta.
- Como?
- É isso mesmo que você ouviu.
- Se a luz está morta é porque o universo parou de se expandir. Temos que aproveitar a vida enquanto ainda há tempo, até que a última réstia de luz chegue por aqui.
- Sentirei saudades da fotossíntese.
- Nem me fale...  Fico pensando nos abajures e nas minhas leituras
- Sem luz não há filosofia.
- Sem luz não há esperança no fim do túnel.
- O sol já se apagou. Mas vai demorar um pouco ainda até se resfriar e ficar como a lua.
- Pedra-pomes. Pomo-de-Adão. O sol é o gogó do universo.
- Pois ele acaba de ser degolado.
- Quem degolaria o sol?
- Deus, oras?
- Que maldito ressentido. Sempre insatisfeito com suas criações.
- Se ao menos o princípio elétrico nos fosse uma ideia original. Logo agora que estávamos tão próximos de recriar o Big Bang.
- Como cobras que comem o próprio rabo.
- Viver na medida do possível é o mesmo que se equilibrar na corda bamba.
- Exatamente.
- Que assim seja. Sem remorsos.
- Sem remorsos. Voltemos à posição fetal.
- Ao breu alucinatório.
- Como diz o filósofo: "O homem ainda preferirá querer o nada à nada querer".
- “O que não mata, engorda”.
- Por que nutrimos ilusões e achamos que o sol nascerá novamente todas as manhãs?
- Por que achamos que somos o real que nutre ilusões e não o inverso? Ou pior: que somos ilusões que se nutrem de ilusões?
- Porque ainda temos a luz.

 

 

Brecha, 2017

 

 

Da profundidade

 

(outubro de 2017)

 

 

 

Ser profundo não é o mesmo que ir longe. Podemos ir longe na superficialidade. Ser profundo é penetrar no desconhecido, no inabitual - é como atolar o membro teso num suntuoso cu.


Professores e intelectuais não são profundos, geralmente, pois possuem papas na língua devido ao hábito de se explicarem e se fazerem entender. Os seres mais profundos, como se sabe, são as mães. As mães são capazes de lançar os impropérios e as pragas mais intricadas - ao modo dos oráculos, pítias ou profetisas. Não as mães de quermesse, ou até mesmo essas. Mas principalmente as mães bruxas.


A natureza é profunda, ela penetra todos os recônditos do infinito. Os homens raramente o são. Estes só conseguem ser profundos quando são melancólicos ou masoquistas. A sodomia é pura superficialidade. Com risos não se vai muito fundo. As imagens são profundas, as palavras nunca. Ficar de quatro e ler a bula de remédio enquanto se é enrabado é a receita dos homens de bom senso para serem mais profundos. No mais é intelectualite.


À guisa de explicação, ser profundo é abusar das camadas. Mas não como faz a cebola. Tem que ir mais fundo. Tem que ser como o repolho. Ser como o repolho é o máximo de profundidade a que pode chegar um homem em vida. Pois profunda mesma é a Terra – e aí, meus caros abobalhados, homem nenhum penetra, a não ser com a morte.

 

 

 

X Film Noir, 2017

 

 

Eletrodos nas babas dos profetas

 

(outubro de 2017)

 

 

 

Suicidas carentes procuram amigos para morrer (diz um anúncio escabroso). Incendiar o corpo e abraçar o próximo é um modo inusitado (talvez moderno) de dizer: “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”.

 

Não é porque vamos morrer que as coisas e o mundo não devam ser preservados, não é, meu senhor? Depois de nós há o outro do outro, o avesso do reverso, o pó do apodrecimento. A continuação da espécie na bosta tóxica e na bruma espectral das ideias.

 

A absorção da tela preta. Eletrodos nas babas de profetas. Iniciação científica nas auréolas de santos do pau oco. Ondas gravitacionais sobre a pele. Monitoramento da resiliência cardíaca cujas frequências emitem o código morte de extintos planetas. Senhores safos de hábitos cavernosos liberam litros de chorume mental sobre adolescentes que tremem na sociedade dos corações espetados.

 

Os homens criaram fórmulas, máquinas, manivelas que abrem a caixa e tocam a música do universo. Mas o que chamam de verdade ou descoberta é apenas um modo de fazer a coisa entre tantos outros. Os códigos são maleáveis e há muitas chaves para a mesma porta. A isso alguns, da câmara dos comuns, chamam mágica, outros, notórios arruaceiros, chamam cu de bêbado.

 

 

 

 

Halo transferência

 

(setembro de 2017)

 

 

I

 

Há muitas forças ocultas ainda que hão de emergir à consciência com nomes pomposos. O desconhecido é um brinde à ignorância e a glorificação dos limites da consciência. Forças ocultas são como animais indóceis, antípodas da razão - obscuro encanto que excita o desejo e enlanguesce a visão.

 

A simplificação da Caixa Orgônica, uma ogiva em estado bruto, um santo corrupto que flerta com o diabo, a halo transferência entre as trevas e as luzes, uma fotografia que teletransporta auras. A humana deficiência locupletada por forças disformes. Metade máquina, metade mágica.

 

 

II

 

Gravidade, eletricidade, magnetismo - o halo em volta do sexo do deus Falo.

 

O infinito é a mistura de todas as coisas. O espaço e o tempo são aberrações, fantasmas  objetivados na percepção. O ser é um aglomerado de contingências que mugem, que clamam por espaço, que flanam pelos corpos.

 

Não mais do pó, o novo surgirá do esgoto, investido de superbactérias, organismos fétidos, micróbios magnânimos e elementos sórdidos diversos.

 

 

 

 

 

Sala de estar, 2017

 

 

 

 

Casal na varanda

 

(setembro de 2017)

 

 

Enquanto o incógnito do segundo andar vê futebol em sua grande tela que arde verde nas minhas retinas, o casal do sexto está trepando na varanda. Pelas sombras e pelos gestos, parece um casal heterossexual. Eles gostam de trepar na varanda. Mas acredito que sejam apenas as primícias ou o grand finale. Erotização da vista, fetiche da visão panorâmica. Do segundo ouve-se "Gol!". Do sexto "Goza". São muitas janelas, a maioria pisca intermitente, o show estroboscópio varia com a grade de programação da TV a cabo, dos canais abertos, da net fixação. Cada cidadão se crucifica em sua sala de estar por livre e alienada vontade. As salas dos apartamentos são a extensão necessária das câmaras de tortura. Mas enquanto o casal silhueta continuar transando na varanda há esperança. Varandas são trampolins para o infinito, mini planetários ocasionais. Entre um afago e uma dedada mais forte é possível ver estrelas. O planeta desconhecido desafia nossa imaginação. Ninguém ainda suspeitou. Mas desde o romantismo, os realistas cultuadores da razão tentam a todo custo matar a capacidade de composição. Sem o sonho, a imaginação já estaria morta. Não apenas Trotsky, mas todos os surrealistas foram mortos, um a um, numa emboscada bolchevique. Frida fritou em banho-maria com limão pra subir aos céus como virgem inocente. O fogo arde pelas costas e o casal pula, ainda unidos pela cópula. O incógnito do segundo andar espera ansioso pela Copa do Mundo de 2018. A última antes do fim do mundo da imaginação. Era uma vez um prédio xadrez, onde um camponês jogava sua vara verde eletrônica e pescava peixes que se dissolviam no céu de uma boca desdentada. A torrente começa. Os rios transbordam. Das sacadas, varandas e terraços os barcos se aprumam. Desse dilúvio ninguém escapa. As comportas da razão não suportarão a grande porra do pau do Deus Fela. A felação é a única saída. A saída de emergência em um mundo que pisca. Há varandas com TVs e há varandas com cus que no lusco-fusco arranham os céus e viram estrelas. Os prédios são varas fálicas nas reentrâncias da terra. Mas antes as varas que as facas de dois lumes.

 

 

 

 

 

A luz é meu fascínio, 2017

 

 

 

 

 

Autorretrato, 2017

 

 

 

 

 

 

 

O profeta e o poeta

 

(Projeto "O jogo entre os deuses e o acaso")

 

Não me pergunte nada

Acabo de me perder e não sei as horas

O verão passou mas o suor me namora

 

Um pássaro voa

O mundo dá voltas

 

Desaparecido, o andarilho procura a esmo

Só quando não se reconhece

O rosto revela a si mesmo

O universo é uma sala de espelhos

 

A quem se deve a figura do carpinteiro?

O profeta e o poeta são o um e o mesmo.

 

 

 

 

Ascenção antes da queda, 2017

 

 

 

 

Meu estômago

 

(Projeto "Filho dos orifícios")


Meu estômago resolveu me digerir
Fui consumido por dentro
Por mim mesmo
Meio que virei ao avesso

Uma longa ruminante digestão
Cheia de ânsias de vômito
Que resultou num bolor transcendental

 

Miolo Mole, 2017

 

 

 

Descofia

 

(Projeto "Filho dos orifícios")

 

 

Depois de me formar

em filosofia,

meu espírito falou:

"Filho, desconfia. Dá o fora, pira!

Antes que sua sanidade expira".

Resolvi não arriscar

e fui fazer meu mestrado na Lapa.

Mais vale um malandro cantando na mão

Do que uma mente e um corpo malsão.

 

 

 

 

Levitação

 

(Projeto "Filho dos orifícios")

 

 

Sou mestre em trocar

os pés pelas mãos.

Já tomei tanto tombo

que hoje,

pra evitar outros tantos,

já não ando, levito!

 

 

 

 

 

 

Primeiro cartão (postal/santinho) da série Todo tédio é falta de amor novo. O número 1 é uma homenagem aos 100 anos da obra Fountain, "criada" por Duchamp em 1917. O verso do cartão traz o poema Privada nossa, uma espécie de paródia da paródia, de duplicação, de oração pós-moderna.

 

 

 

Artistas são vagabundos que se ocupam, 24h a fio, de sonhos, delírios e experimentos. Vez por outra esses processos intricados, work in progress ad aeternum, se materializam em artefatos, signos, sons, cheiros, sabores... Vez por outra esses recalcitrantes rebeldes intempestivos doam ao mundo seus simbólicos rebentos comunicantes, que falam a língua dos anjos caídos.

 

 

 

 

Privada nossa

 

(Projeto "Todo tédio é falta de amor novo")

 

Privada nossa que estais na terra,
santificada seja por Duchamp,
venha a nós o vosso efeito,
seja feita a vossa descarga
assim na cidade como no campo.

A merda nossa de cada dia nos subtrai hoje,
perdoai nossas flatulências,
assim como nós, pelo ânus,
desejamos que tome
a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em prisão (de ventre),
mas livrai-nos dos excrementos.

Amém!

 

 

 

Primeiro cartão (postal/santinho) da série Todo tédio é falta de amor novo. O número 1 é uma homenagem aos 100 anos da obra Fountain, "criada" por Duchamp jem 1917. O verso do cartão traz poema Privada nossa, uma espécie de paródia da paródia, de duplicação, de oração pós-moderna.